Pessoas e alimentos: uma relação em plena mutação
A Alimentaria, uma das três maiores feiras de alimentos e bebidas do mundo, abrangeu o que há de mais inovador na indústria e, principalmente, mostrou que o ato de consumir mudou radicalmente e vai mudar muito mais
Lançar olhar atento sobre as inovações e as tendências mundiais de produção e consumo de alimentos e bebidas foi o principal ponto abordado durante a Alimentaria 2012, salão internacional de periodicidade bianual, realizado de 26 a 29 de março em Barcelona, Espanha. Para hastear essa bandeira de renovação, a organização caprichou em quantidade de expositores e de especialistas aptos a apresentar boa gama de inovações, dizer o que é tendência, divulgar pesquisas e informações sobre produtos, tecnologias, comportamento e expectativas do consumidor.



Este ano, a feira cresceu mesmo diante de crise financeira na Espanha, que tem taxa de desemprego superior a 23% da população economicamente ativa. O evento é, sem dúvida, ferramenta importante para a recuperação econômica do país europeu. A expectativa dos organizadores é que ele gere impacto econômico entre 170 e 200 milhões de euros, conforme estimativa do presidente da Alimentaria, Josep Lluís Bonet.
O mercado de alimentos e bebidas tem importância enorme na nação de cultura catalã. A produção local ultrapassa 80 milhões de euros por ano, o que representa 7,6% do Produto Interno Bruto (PIB) espanhol. O setor está à frente de outras áreas também muito fortes no país, como a automobilística, a de tecnologia e a efervescente indústria da moda.
Só que mesmo com a força da própria indústria, a feira ficou mais internacionalizada nessa edição... é preciso abrir horizontes e mercados em tempos de crise para vencê-la. Nada menos que 20% do espaço total foi cedido para empresas estrangeiras, provenientes de 75 países, fora a Espanha. Elas somaram 1,3 mil das quatro mil companhias participantes da Alimentaria 2012.
Para abrir esse caráter mais globalizado da feira a partir de agora, foi criada a figura de país convidado. E o primeiro foi o México. Os estandes da nação latino-americana apresentaram produtos típicos bem difundidos, como as pimentas, e outros nem tanto, como a vanila, usada principalmente no preparo de doces, chocolates e sorvetes.
Para abrigar a cultura mexicana e a de outros 74 países, o evento ocupou 94,8 mil metros quadrados, usados para acomodação de estandes, rodadas de negócios, jornadas, congressos e palestras. Dessa vez, optou-se por montar sete pavilhões, dois a mais que na edição anterior.
A grandiosidade da feira podia ser vista de uma passarela, localizada em andar superior aos pavilhões e que dava acesso a eles por meio de elevadores e escadas rolantes.
De cima, se avistava a quantidade enorme de estandes e a criatividade de cada um deles para despertar o interesse dos participantes. Foram 142 mil, 1,4% mais que em 2010. O número de estrangeiros cresceu muito mais, 11%. A presença deles equivaleu a 29% das pessoas que ali estiveram. Em números absolutos, 40 mil profissionais.
Inovação acima de tudo
No sétimo pavilhão havia uma área em que se destacava o amarelo, cor referência para identificar um novo espaço criado nesta edição, chamado de Alimentaria Hub. Na feira, os pavilhões foram sinalizados por cores para facilitar a localização. A Alimentaria Hub, nome que em português significa centro de uma atividade, abrigou uma exposição, a Innoval 2012. Na oitava edição, essa mostra apresentou e premiou 140 produtos, eleitos como representantes da capacidade inovadora do setor de alimentos e bebidas em escala global.
Mas como a ideia era expandir paradigmas e preceitos de inovação, o local contou também com programação para fomentar a importância de se investir em tecnologia, pesquisa e de se descobrir tendências. Auditórios montados na ala Hub serviram de sede para o Congresso Internacional de Dieta Mediterrânea, com foco para a prevenção da obesidade, e do VI Encontro de Inovação e Tecnologia da Federação Espanhola da Indústria de Alimentos e Bebidas (Fiab). Além do mais, a definição de que consumir é ato para satisfazer necessidades caiu por terra porque outras variáveis influenciaram o sentido de consumir nos dias atuais.
Para satisfazer tantas formas de consumo, individuais e coletivas, é preciso se inspirar em tendências, isso porque elas são os motores da inovação, segundo as especialistas da AZTI. “No setor de alimentação, as tendências são ainda mais relevantes pelo fato de não serem efêmeras, ou seja, passageiras”, disseram.
Por esse motivo, as profissionais enumeraram oito tendências que certamente perdurarão entre consumidores de todo o planeta, como uma chamada por elas de food telling — alimentos com mensagens. Isso quer dizer que não se consomem somente produtos, mas a história que existe por trás deles.
Também há o desejo por experiências que estimulem os sentidos corporais, e o exemplo para ilustrar isso foi o jantar às cegas em Paris. O modelo citado pelas especialistas é do restaurante francês Dans le Noir, onde se come sem enxergar para que se tenha experiência sensorial surpreendente e diferenciada sobre os alimentos servidos. No Brasil, há restaurantes que oferecem este tipo de experiência, como o Bistrô Blès d’Or e o Capim Santo, em São Paulo.
A Conservas Isabel, de origem espanhola, apresentou tecnologia exclusiva capaz de ativar os cinco sentidos do corpo humano, só que de olhos abertos. Ela foi desenvolvida para embalagens de produtos populares, como as das saladas prontas para consumir. O diferencial, segundo a empresa, é a capacidade de manter a crocância, o sabor, as cores e as propriedades nutricionais dos ingredientes de forma natural e sem necessidade de adicionar conservadores.
Em continuação à palestra da AZTI, as diretoras da instituição reforçaram outra tendência, denominada slowcal. Nela, perdura a necessidade de se manter a calma para comprar, preparar e consumir os alimentos. Só que, em alguns momentos, tudo isso pode ser contradito pelo desejo de se consumir algo imediatamente. Chega, então, a vez de se aplicar outra tendência, batizada de ‘aqui e agora’. Ela é essencial para atender vidas em ritmo acelerado e que demandam refeições práticas e possíveis de serem feitas em qualquer lugar. “Mas não estamos falando de fast-food, mas de algo rápido e saudável”, comentaram as palestrantes.
Para satisfazer essa demanda, a Calvo, presente no Brasil por meio da marca Gomes da Costa, exibiu uma máquina que possibilita ao consumidor comprar pratos prontos, elaborados com ingredientes naturais, por menos de dois euros. O prático é que podem esquentar esses pratos em fornos elétricos que ficam embutidos no próprio equipamento.
Outra tendência, chamada de made simple (fazer com simplicidade) casa muito bem com essa necessidade de urgência. Nesse caso, o consumidor procura por produtos que tenham rótulos com mensagem simples, que indiquem com clareza os ingredientes e a importância deles para a saúde. Exemplo citado pelas palestrantes é o de um supermercado sueco que vende ingredientes selecionados para o preparo de refeições balanceadas para cada dia da semana, com as respectivas receitas para facilitar a vida do cliente.
Mais uma tendência apresentada por Begoña e Sonia, e que novamente remete à preservação da saúde, se chama my health (minha saúde). Ela indica a relação íntima e intensa criada em torno de alimentação, bem estar, saúde física e mental.]
Todavia, ao mesmo tempo que os indivíduos se preservam física e mentalmente, são novamente contraditórios, pois muitas vezes não querem abrir mão do indulgente e do hedônico, ou seja, do que lhes dá prazer. Essa tendência foi denominada pelas pesquisadoras de eater tainment.
Além dela, há outra, chamada de ego food, para sinalizar que existem aqueles que preferem tudo o que é personalizado, simplesmente por gostarem de mostrar a forma como são através do que consomem. Esse comportamento inspira produtos com licenças de times de futebol, muito difundidos por aqui, e a criação de itens premium, de alto valor agregado.
Leia na íntegra na revista SuperHiper edição Abril/2012
